Poesia Matança – do Baiano Augusto Jatobá
(Cantado também pelo músico Baiano Xangai)
Cipó caboclo tá subindo na virola, chegou a hora do pinheiro balançar, sentir o cheiro do mato da imburana, descansar morrer de sono na sombra da barriguda, de nada vale tanto esforço do meu canto, pra nosso espanto tanta mata haja vão matar, foi mata atlântica e a próxima amazônica, arvoredos seculares impossível replantar.
Que triste sina teve cedro nosso primo, desde menino que eu nem gosto de falar, depois de tanto sofrimento seu destino, virou tamborete mesa cadeira balcão de bar.
Quem por acaso ouviu falar da sucupira, parece até mentira que o jacarandá, antes de virar poltrona porta armário, mora no dicionário vida-eterna milenar.
Quem hoje é vivo corre perigo, e os inimigos do verde da sombra, do ar que se respira e a clorofila das matas virgens destruídas, é bom lembrar que, quando chegar a hora, e é certo que não demora, não chama Nossa Senhora, só quem pode nos salvar.
É caviúna, cerejeira, baraúna, imbuia, pau-d arco, solva, juazeiro, jatobá, gonçalo-alves, paraíba, itaúba, louro, ipê, paracaúba, peroba, massaranduba, carvalho, mogno, canela, imbuzeiro, catuaba, janaúba, arueira, araribá,pau-ferro, angico,amargoso, gameleira,andiroba, copaíba, pau-brasil, jequitibá.
Postado por Sirlene.
Uau! Emocionante! Emocionei-me mesmo!
ResponderExcluirEu já tinha escutado essa canção por Xangai algumas vezes, mas nunca tinha entendido a letra. Nosso Brasil tem disso, por uma lado tantas maravilhas e riquezas naturais milenares, e por outro a força do gigante capital que não se importa com nada além do lucro, do acúmulo de bens para si. É mesmo uma pena!
Sabe, essa foi uma das reflexões que mais me motivaram a escolher a docência como profissão, pois sinto muita esperança de boas transformações através da educação.
Muito boa poesia!
Tainá Capoto
Polo Alto Paraíso de Goiás
Essa poesia fez-me lembrar de uma música do paraibano Viatal Farias, companheiro de Xangai, chamada "Saga da Amazônia". O nome já diz tudo. Estou escutando agora mesmo. Vou postar para todos verem que emoção, e refletirem profundamente nessa triste realidade que vem sendo muito difícil de parar.
ResponderExcluirSaga da Amazônia
Vital Farias
Era uma vez na Amazônia a mais bonita floresta
mata verde, céu azul, a mais imensa floresta
no fundo d'água as Iaras, caboclo lendas e mágoas
e os rios puxando as águas
Papagaios, periquitos, cuidavam de suas cores
os peixes singrando os rios, curumins cheios de amores
sorria o jurupari, uirapuru, seu porvir
era: fauna, flora, frutos e flores
Toda mata tem caipora para a mata vigiar
veio caipora de fora para a mata definhar
e trouxe dragão-de-ferro, prá comer muita madeira
e trouxe em estilo gigante, prá acabar com a capoeira
Fizeram logo o projeto sem ninguém testemunhar
prá o dragão cortar madeira e toda mata derrubar:
se a floresta meu amigo, tivesse pé prá andar
eu garanto, meu amigo, com o perigo não tinha ficado lá
O que se corta em segundos gasta tempo prá vingar
e o fruto que dá no cacho prá gente se alimentar?
depois tem o passarinho, tem o ninho, tem o ar
igarapé, rio abaixo, tem riacho e esse rio que é um mar
Mas o dragão continua a floresta devorar
e quem habita essa mata, prá onde vai se mudar???
corre índio, seringueiro, preguiça, tamanduá
tartaruga: pé ligeiro, corre-corre tribo dos Kamaiura
No lugar que havia mata, hoje há perseguição
grileiro mata posseiro só prá lhe roubar seu chão
castanheiro, seringueiro já viraram até peão
afora os que já morreram como ave-de-arribação
Zé de Nata tá de prova, naquele lugar tem cova
gente enterrada no chão:
Pos mataram índio que matou grileiro que matou posseiro
disse um castanheiro para um seringueiro que um estrangeiro
roubou seu lugar
Foi então que um violeiro chegando na região
ficou tão penalizado que escreveu essa canção
e talvez, desesperado com tanta devastação
pegou a primeira estrada, sem rumo, sem direção
com os olhos cheios de água, sumiu levando essa mágoa
dentro do seu coração
Aqui termina essa história para gente de valor
prá gente que tem memória, muita crença, muito amor
prá defender o que ainda resta, sem rodeio, sem aresta
era uma vez uma floresta na Linha do Equador...
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